E tome amor nessa vida!

Amigo, já teve a experiência de ouvir a narrção de um radialista e ver um lance do seu time?


 

É importante dizer que futebol faz parte da minha vida desde que eu era um feto e passei a me tornar um fato. E minha família tem muita culpa nisso. Eu nem digo que meus irmãos me influenciaram a torcer pelo Bahia, a bater de maneira correta em uma bola ou ir ao estádio. Muito pelo contrário, eu aprendi essa zorra toda sozinho e quem mais me deu força foi o casal João e Mariá. Salve os plural!
Sempre gostei muito, comecei jogando o tradicional futebol com os vizinhos, chutando bola na parede do vizinho, na porta da garagem do vizinho, na janela não, mas já chutei de uma forma que parou dentro da casa dele e com certeza foi gol. Eu nunca tive a manha de bater de outra forma que não fosse bicuda, mas era bom defensor. Já joguei futebol de botão e tudo mais. Mas nada me deixava mais curioso do que ver o Bahia no estádio. Meu pai era um excelente torcedor do Bahia com sua fervorosidade e mainha era a torcedora técnica. Minha mãe foi a única mulher com quem eu tinha prazer de discutir futebol até uns anos atrás. Ja rolaram brigas homéricas aqui em casa quando estávamos assistindo ao mesmo jogo. Ela é do tipo que sempre diz: 

- Faltou o cara do rebote, ninguém acompanha a jogada!

E muitas vezes ela tava certa, na verdade ela tá certa sempre. Minha mãe sempre foi muito tímida, nunca teve a chance de se expressar e quando fazia era repreendida. Passado esse tempo ruim, hoje ela se expressa de maneira engraçada sobre algumas coisas. Minha mãe é do tipo que não assiste jogo da Seleção Brasileira pra não passar mal. Será que é de raiva (1982?), disputa de pênalti nem pensar! Deve ser isso mesmo. Prefere escutar os comentário da tv alta, e ela lá na cozinha ou lavando roupa.
Já meu pai eu não sei como ele começou a torcer pelo Bahia, mas vivia vidrado no rádio de pilha ou na radiola lá de casa. Uma Panasonic, se não me engano, com revestimento de madeira. Nesse tempo era muito raro transmitirem jogos do Esquadrão de Aço e quando o dia tava muito chato eu parava no sofá e via meu pai na janela com sua garrafa de cerveja e o copo de alumínio com Brahma, escutando os grandes narradores do rádio descreverem como se movimentavam e as jogadas de uma maneira emocionante e muito confusa, pra mim na época, dos jogadores em campo. Bicho! Eu nunca entendia até o dia que comecei a prestar mais atenção no que era falado. Era difícil de imitar e fácil de entender. Era como se os ouvidos se abrissem e você conseguisse entender um novo idioma, passei por essa sensação essa semana na oficina de inglês e por isso consigo descrever.

Eram tempos de ouro, eu só esperava o narrador gritar gol do Bahia e sair correndo, comemorando por que meu pai gritava de lá da janela e me dava um abraço. Ele sempre criava um verso cantado quando queria sacanear. Eu dou risada de uma vez que o Vitória tomou pau do Paysandu e ele fez o improviso ali na hora. O vizinho, único naquela parte da rua tomada por tricolores, era branco e quando ouviu ficou parecendo uma lagosta cozida. Eu só ficava encabulado quando ele gritava o famoso "Bora Baêa, porra!".
Porra na minha época era digno de um tapa na boca, ele quando tava em água me fazia dizer isso. Era meio que "Tá com medo é? Sou eu que tô mandando". A corôa virava a zorra se eu falasse isso perto dela. Hahahahaha!

Sempre quis ver o Bahia jogando na TV, na década de 90 tive poucas chances e o jeito era esperar os resultados no rádio e ver os lances no programa do Chico Queiroz e Paulo Cerqueira. Os melhores momentos dos jogos eram de fato "Os melhores momentos". E minha paixão nasceu ali, assistindo e ouvindo. Ia ao estádio só pra ver BAVI (isso é outra história). Tempos mais tarde meu pai veio a falecer, meses depois o Bahia foi rebaixado. Senti raiva de Deus, senti raiva de muita coisa. Algum tempo depois vi o rádio que meu pai usava, um radinho preto com um som potente, pegava duas pilhas. Não sei que fim teve, mas eu tinha meu próprio radinho de pilha. Comecei a acompanhar os jogos, nunca as resenhas, pois eu não sabia os horários e queria assistir desenho na tv. Era menos doloroso e trazia poucas lembranças. Mas minha mãe nunca me deixou abandonar a paixão. Até me apoiava a ir pra Fonte Nova, sozinho até vu (eu já sabia me virar na rua desde os 8 anos), mas de preferência com um amigo, geralmente o Marcinho (Márcio e mais histórias).
Voltei a ouvir resenhas através do meu amigo, futuro jornalista esportivo com fé em Deus, Marcelo Moçada (@marcelo_gois), ele uma vez disse que tinha conseguido ligar pro programa de um Zé Eduardo e fez um comentário. 

- Quem?
- Ouça, é difudê!

É mole ou quer mais?

Depois disso voltei a criar mais gosto ainda. Descobri que as resenhas mudaram e dava pra não pensar com tristeza sobre o Bahia e meu pai. Em momentos mais tristes e amorosos comecei a escutar Mário na Metrópole pra me manter de bom humor. Mas, não vem ao caso, quem sabe escreverei sobre isso um dia.

Assim comecei a amar o rádio, cada vez mais sendo Bahia. É impossível ser Tricolor sozinho!

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