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Não é segredo ou novidade que sou um amante de jogos eletrônicos, daqueles que dedica horas nas férias, feriados e fins de semana. As vezes até umas madrugradas da vida! Lembro de uma noite de reveillon que passei sozinho em casa e minha única companhia era um Call of Duty: Modern Warfare. Eu não escolhi ficar em casa, na verdade eu não tinha opção pra onde ir e meus amigos...
Forever Alone













Mas o fato é que por muitas vezes esse tipo de entretenimento salva qualquer dia cansativo, estressante ou até mesmo ajuda a completar um bom dia. Eu sou Gamer desde 1990, que foi a primeira vez que joguei no Atari o famoso Enduro e eu batia o carro pra caramba. Lembro que o jogo era uma verdadeira punheta, só não era mais que o Decatlon, muita gente teve L.E.R jogando essa zorra. Depois comecei a jogar Sega (pouquíssimas vezes) por que o fdp me chamava e eu tinha que ficar olhando o escroto jogar Sonic, aprendi que pra ter certos prazeres tenho que pagar, aos 8 anos já tinha a manha e ia pra locadora por muitas vezes escondido ou ia pro fliperama jogar créditos de Street Fighter de Rodoviária (Street Maluco), Samurai, Super Sidekicks e KOF.

Caramba, naquela época era muito melhor de jogar, ou pelo menos é essa a imagem que tenho sobre os games. Tudo era mais difícil, nunca tive um console em casa que fosse meu, além dos games que não estavam ao alcance o tempo todo, tinha chance de brincar com meus bonecos e carros antes do incêndio acontecer no "Quarto dos Brinquedos", batia o Baba com a galera e não tinha essa de: Sou o dono da bola, muito pelo contrário, se não me escolhessem por conta da minha grosseria - não era habilidoso, não sei dar dribles perfeitos até hoje, sei marcar, bater forte, suspender e fazer gols muito bem - eu ficava de fora esperando dupla quando chegava tarde ou não era escolhido.
O Baba da rua São Patrício (São Jorge pros mais antigos), era extremamente democrático, todos jogavam e não importava a idade (eu era o segundo mais novo). O que importava era a diversão, os dribles e muitos gols. A rivalidade morava ali no futebol e somente ali, era o unico lugar em que pessoas que não se falavam em outros ambientes conseguiam ter um tipo de laço, o que importava era a diversão. Uma das poucas coisas que não tolerávamos era provocação durante o jogo, o sangue fervia e o cérebro não funcionava, ninguem nunca havia criado essa regra, mas todos sabiam que alugação após uma derrota ou durante uma partida era um dedo no gatilho... não literalmente.
Tínhamos várias brincadeiras e algumas delas eram até violentas, é incrível como criança gosta de violência, pelo menos a galera moderava. Fora isso tinham as famosas 7 pedrinhas, 5 cortes, esconde-esconde, picula e pega-pega (são coisas diferentes, em uma você aposta corrida e a outra tem que tocar na pessoa pra ela correr atrás dos outros) sem contar a que inventamos por lá: Papai Ajuda - era um tipo de pega-pega que o tocado tinha que ajudar pegar os outros, quase uma Infecção Zumbi - O divertido é que nessa brincadeira misturavam-se meninos e meninas, mais de 10 cabeças correndo pra tudo que é lado, uma gritaria da porra na rua as 20 horas, era massa! Os coroas ficavam assistindo e muitas vezes só tinha um pai observando ou nenhum, ninguem tinha medo assim do que poderia ocorrer nas ruas, pelo menos não naquela, a ponto de ja ter batido baba até onze horas da noite, mas aí tem escola no dia seguinte e sabe como é.

Depois que o Quarto dos Brinquedos pegou fogo e eu perdi meus bonecos e carros, comecei a brincar com CANETAS. Eu colecionava qualquer tipo de caneta, personalizava e finjia que eram bonecos. Meus pais ficaram assustados, é claro. Provavelmente a família achou que eu tinha algum tipo distúrbio, mas eu expliquei que da mesma forma em que os garotos antigos pegava garrafas de Q'boa e amarravam arames para fingir que eram carros, eu gostava de brincar com as canetas. Pra mim era tão claro que não conseguia acreditar como as pessoas não se divertiam com aquilo. Poxa, eram canetas-lutadoras!! Como eu não tinha games caros ou brinquedos e sempre senti vergonha em pedir coisas novas aos Corôas (brinquedos estavam ficando caros e não tinha mais o que eu queria), ficava na minha e ia improvisando no que sobrou: Jogo de botão, futebol, Tv e canetas.
Minha imaginação era tão rica que se eu escrevesse as histórias que criava com aquelas canetas, hoje estaria tão rico quanto George Lucas e teria uma história no cinema. As histórias tinham até cronologias, o personagem renegado, clãs, hierarquias e vários clichês atualmente utilizados. Foi o tempo que mais me isolei da galera, tinham coisas que não concordava em participar, meu tempo de crescer era totalmente diferente do deles. Já tinha uns dez anos e a vida me preparava pra algumas porradas que viriam no futuro, mas é outra história.

Hoje as coisas estão mudadas, não vejo muitas crianças brincando nas ruas e a principal diversão é a droga do PC. As mães preferem colocar um computador em casa ou dar dinheiro pro guri ir na Lan House do que soltar no campo de futebol aqui ao lado. É triste, mas é uma consequência da vida moderna e violenta na Bahia, apesar de sempre me alegrar quando vejo 20 ou 30 cabeças de pivetes indo pegar o baba ou treinar nos times mirins, como eu treinei tambem em um desses times, o nome: Barcelona. Hehehhehehehhe! Eu sonho mesmo é com um lugar menos violento, onde ser pobre não tenha que ser sinônimo de conviver com a violência e as drogas.

Apesar de ser Gamer Hardcore e um apaixonado por tecnologia, reprovo que uma criança tenha que ficar o dia todo na frente de um computador e ter como melhor amigo alguem que não conhece. Pra mim a infância é a fase em que o humano tem que brincar e ser cuidado, mesmo sabendo que nem todos tem a chance de viver dessa maneira, talvez as crianças pobres como eu fui tivessem mais chances de viver aquele momento do que as de hoje. Eu não consigo imaginar criando um filho dentro de um playground, e tambem não quero ter um guri que viva na frente de um pc. Eu sonho com João Francisco gastando horas jogando comigo e os amigos e até batendo uma bolinha ou tomando umas quedas no Judô.

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