DIVAGAÇÕES SOBRE RELIGIÃO, INTOLERÂNCIA E GUERRAS.




Sou macho!
João Klaus: Irmão, obrigado por todas as boas gargalhadas nos poucos minutos em que podemos conversar!

Com muita honra recebi do meu amigo Junio Queiroz a difícil tarefa de escrever sobre um dos temas mais delicados de todos os tempos. É necessário deixar claro que o autor deste blog não estipulou nenhum tipo de censura ou restrição, deixando-me absolutamente à vontade para expressar minhas opiniões, mesmo que elas, porventura, entrem em divergência com as suas. Desta forma, declaro-me integralmente responsável pelas imagens e conteúdo do texto aqui escrito.

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Tomo a liberdade de convidar o leitor a um rápido passeio temporal com escala em alguns dos principais episódios da história da humanidade. Nesta viagem, onde de tudo se vê, notar-se-á aquilo que faz do homem um ser diferenciado, e não me refiro apenas ao polegar opositor, à postura ereta ou ao córtex cerebral evoluído, mas à sua principal especificidade; a vida civilizada. Ao longo de toda a história humana estivemos em grupos, diferenciando-nos dos outros animais pela capacidade de assimilar valores sociais, chamados, em suas particularidades, de cultura. As culturas foram e ainda são definidas pelas tradições artísticas, gastronômicas, políticas, econômicas, comportamentais e religiosas de determinado grupo.
            Observando atentamente a trajetória desses grupos não é difícil perceber que em meio a eles, quase sempre, houve relação conflituosa. Alguns desses conflitos, em especial, marcaram com muito sangue as páginas dos livros de História, nos permitindo citar como os mais conhecidos: a guerra de Tróia; as conquistas de Alexandre, o Grande; as Cruzadas; as guerras pela Independência da Escócia; a Guerra dos Cem Anos; Guerra da Independência dos Estados Unidos; Guerras Napoleônicas; Guerra da Independência do Brasil; Guerras do Ópio; Guerra do Paraguai; Primeira Guerra Mundial; Revolução Russa; Segunda Guerra Mundial; Guerra do Vietnã; Guerra Irã-Iraque; Guerra das MalvinasGuerra do Golfo; Invasão do Afeganistão e do Iraque, entre outros. 
            Proponho que regressemos dessa viagem de quase quatro milênios e brevemente enumeremos alguns dos fatores causadores de conflito. Com toda certeza não se tratam de fatores isolados, no entanto, acredito que concordaremos que questões políticas, econômicas, territoriais, culturais e religiosas são de grande relevância. Dentre tais fatores um deles me chama profunda atenção e corresponde ao convite para a elaboração desse texto; a intolerância religiosa.
            Ao contrário do que vocês podem estar pensando, não sou tão tolo para acreditar que as guerras ditas religiosas tinham, de fato, cunho religioso como razão de ser, mas acredito também que não são vocês tão tolos para descartarem a importância que as religiões tiveram e ainda tem nos conflitos da humanidade. Mesmo nas civilizações mais antigas, os representantes religiosos sempre figuraram entre as mais altas castas. Na Idade Média, por exemplo, o Clero ocupava importante papel político no Estado ao lado dos Reis, que eram considerados ‘escolhidos’ de Deus. Sendo assim, em uma história pautada pela divisão de classes, aquela que detinha o poder, ditava as regras.


             O ponto onde quero chegar diz respeito à legitimidade de poderes dominantes, das ideologias e da naturalização da divisão de classes. Por que, afinal, a maioria das pessoas, ao longo do tempo, se submeteu à exploração e à dominação? Justificativas como o medo da força são admissíveis, mas isso não seria o suficiente para deter tamanho contingente de pessoas. Para que uma minoria desfrutasse das riquezas e do poder e, além disso, quisesse ter a maioria trabalhando para ela, era necessário que essa maioria aprendesse a obedecer, já que somente o uso da força criaria, por si só, a ameaça constante de que, um dia, a maioria utilizasse os mesmos métodos para derrubar a minoria do poder. Deste modo,

a obediência que tem suas raízes apenas no medo da força deve ser transformada numa obediência que se enraíze no coração do homem. O homem deve querer – e até mesmo precisar – obedecer, em vez de apenas sentir medo de desobedecer. Quando pretende conseguir isso, o poder deve assumir as qualidades da Suprema Benevolência e da Suprema Sabedoria; deve tornar-se Onisciente. Quando isso acontece, o poder pode proclamar que a desobediência é um pecado e a obediência, uma virtude. E, uma vez isso proclamado, quase todos os homens aceitarão a obediência, porque ela é boa, e detestarão a desobediência, porque ela é ruim – em vez de detestarem a si mesmos por serem covardes. (FROMM, 1984)

Assim sendo, não é difícil perceber como o Estado se utiliza da Igreja e como esta, por sua vez, é um dos mais poderosos instrumentos de dominação. A covardia enunciada por Fromm pode nos dar uma pista do alvo que os discursos religiosos pretendem atingir. Limitado de conhecimentos, o homem primevo percebeu-se frágil e desprotegido diante da complexidade da natureza e da morte que não compreendia. No princípio atribuiu aos astros o poder sobre a existência, posteriormente criou mitos e valores morais. Para Freud, “as ideias religiosas surgiram da mesma necessidade de que se originaram todas as outras realizações da civilização, ou seja, da necessidade de defesa contra a força esmagadoramente superior da natureza” (p.?). E é aí que a ingênua fé do homem se transforma em uma poderosa instituição. A Igreja toma para si a representação do divino e é em seu nome que opera. O antigo medo da natureza transforma-se em temor a Deus e a obediência ambicionada pelas classes dominantes se estabelece com o consentimento do homem sem que este ao menos esboce resistência.
Sem que suas decisões sejam questionadas ou contrariadas pelo povo, a aliança entre Igreja e Estado se vê suficientemente fortalecida para alcançar vitórias políticas e econômicas ainda maiores. Na medida em que seus interesses dirigiam-se às riquezas de outra nação, o apoio popular era fundamental. Em forjada defesa da humanidade contra os demônios e pagãos, o povo foi incitado às mais terríveis guerras. Dentre as citadas no começo do texto podemos usar como exemplo as Cruzadas ou os mais recentes conflitos entre Irã e Iraque e as invasões ao Afeganistão. 

Apesar da compreensão das circunstâncias políticas que levaram multidões ao conflito, confesso que o medo da força e a obediência religiosa ainda me parecem insuficientes enquanto justificativa. O número de pessoas envolvidas nas batalhas é incalculável e se estas tivessem dito não, muito provavelmente, algumas dessas guerras não teriam acontecido.  Tudo isso me leva a acreditar que algo no campo psicológico interferiu fortemente nas ações dos homens que mataram e morreram por ideais que não eram seus (é importante lembrar que estamos analisando “guerras santas”, excluindo as motivações de guerras em nome da liberdade e da independência, por exemplo).  Ao que parece, os homens não apenas foram empurrados para o campo de batalha, mas também se dirigiram a ele por aderirem aos ideais já tão enraizados. O fato de ser vítima de manobras políticas perversas não exclui o fato de o homem ser instintivamente agressivo. Segundo Freud (1974), com o desenvolvimento da civilização, as pulsões agressivas do homem encontrariam limites no “narcisismo das pequenas diferenças”, onde um grupo se uniria no amor, manifestando sua agressividade para fora. O autor afirma que, quando a agressividade não pode ser externalizada, ela é introjetada e dirigida ao próprio ego, o que representa considerável perigo ao indivíduo.
Chegamos então a um ponto de reflexão dialética de extrema complexidade; não é mensurável a fronteira entre as interferências políticas e sociais e as próprias motivações do indivíduo. Se no princípio o homem utiliza Deus como conforto para as suas fragilidades mortais e depois a Igreja utiliza Deus para dominar o homem politicamente, o que acontece em seguida para o homem passar a se comportar de determinada maneira sem que o mandem? Na teoria psicanalítica cabe ao superego – uma das três instâncias dinâmicas do aparelho psíquico – forçar o ego a se comportar de maneira moral e de acordo com os valores da sociedade. O superego é uma espécie de “herdeiro” do Complexo de Édipo, uma vez que é nesse ponto que se dá a primeira censura ou corte através do tabu do incesto; a criança introjeta os valores recebidos dos pais e da sociedade a fim de receber amor e afeição. Freud não tinha dúvidas de que os acontecimentos da história humana na sua interação com a natureza e o desenvolvimento cultural, mesmo os precipitados pela experiência primitiva (cujo expoente máximo é a religião) não passavam de reflexos dos conflitos dinâmicos entre o ego, o id e o superego repetidos em escala mais larga. Conclui-se que o homem comporta-se repetindo suas relações objetais infantis, enxergando em Deus e na Igreja o mesmo afago e a mesma autoridade inerentes ao seu pai durante o processo de castração.
Espero não estar transparecendo uma ideia errônea de que o homem é mau por natureza e as guerras são resultado disso. Há de se diferenciar agressividade instintiva e maldade moral. Toda regra moral é constituída socialmente, logo, não faz sentido atribuir tal adjetivo à natureza biológica ou espiritual; o que temos em pauta é um homem multideterminado e produto da sua própria história social e psicológica, sem a dicotomia habitual. 

No que diz respeito aos dias atuais, penso que a breve contextualização e as análises esboçadas até então servem como o indicativo de uma abordagem que se pretende, minimamente, não leviana. Não é incomum, nas principais manchetes, lermos sobre ataques violentos, sejam físicos ou morais, a homossexuais e travestis, a torcedores dos mais diversos clubes, a negros, nordestinos, etc. Talvez essa realidade tenha se mostrado mais evidente nos últimos anos, mas, ainda assim, temo que este não seja o seu ápice. Num mundo real cada vez mais “politicamente correto” e num mundo virtual cada vez mais acessível e real, tem-se visto com frequência e como tendência a intolerância e a depreciação gratuita. Quem já participou de fóruns online, mesmo que em redes sociais, já deve ter notado a dificuldade de trocar argumentos e expor opiniões sem que estas sejam recebidas com respostas agressivas. Na atual ditadura da “minha opinião”, ou na “democracia” surda que não dialoga, temos visto um alarmante e perigoso sintoma da barbárie humana ainda ignorada pela realidade não virtual. Sou mais uma vez obrigado a concordar com Freud quando o mesmo diz que aquilo que nos aflige dentro da civilização e contraria as nossas pulsões precisa ser deslocado para algum lugar. E a internet tem-se mostrado praticamente como um espaço onde tudo é liberado. Quero deixar claro que não se trata aqui de um discurso conservador, entretanto, faz-se necessário alertar que toda a intransigência vista no mundo virtual seria assistida no mundo real não fossem as complicações jurídicas que acarretariam. Isto posto, é possível afirmar que o relativo sucesso das leis repressoras é respectivo ao extremo fracasso da cidadania, até porque aquilo que se reprime tende a se deslocar e formar um sintoma. Sendo claro e objetivo; o que se vê na sociedade real tem sido, em grande parte, apenas uma máscara, o ideal daquilo que deveríamos ser em essência, e aquilo que vemos no mundo virtual tem sido, também em grande parte, aquilo que somos em nossa face mais sombria. É um engano acreditar que isso ficará preso ao mundo virtual por toda a eternidade. Além do fato desse sintoma não ter origem no mundo virtual, é de domínio popular que as máscaras sempre caem; ou olhamos com atenção para a nossa sociedade, incluindo todos os aspectos políticos e econômicos, ou cenas envolvendo lâmpadas fluorescentes serão cada vez menos chocantes.
Voltando ao recorte original do texto, a quantas anda a intolerância religiosa nos dias atuais? Eu ousaria dizer que muito bem encaixada na vigente política neoliberal. Nos últimos anos, num país de maioria católica até então, temos visto o fenômeno do crescimento das igrejas protestantes neopentecostais a todo o vapor, e são elas de todos os tipos e perfis. O campo religioso embarcou de uma vez por todas na lógica do livre comércio e da livre competição. A abundância de doutrinas e as interpretações bíblicas em permanente desacordo têm ocasionado, de forma ainda mais nítida, o narcisismo das pequenas diferenças. Em incessantemente disputa por fiéis, as igrejas ampliaram seus leques de produtos e ofertas. Vendem-se pares de meias ungidas por R$153, martelos justiceiros por R$1.000 e até mesmo os milagres mais complexos. Prevenindo-se de acusações de charlatanismo, os responsáveis por tais embustes invertem o quadro acusando os seus concorrentes diretos de “falsos profetas”, como alertou a Bíblia. Sob a terrível ameaça das consequências por estarem seguindo um falso profeta, os fiéis compram a briga dos seus mentores, não sem antes passarem por inúmeras sessões de manipulação e ameaças disfarçadas. Os fiéis são “precavidos” sobre todo o tipo de conspirações secretas e seitas satanistas que ambicionam a dominação do mundo. Os seguidores das doutrinas rivais são tidos como ameaça constante por estarem a serviço de um falso profeta, mas se tornam alvo de investidas missionárias regeneradoras, assim como os agnósticos e ateus. Em nome de sua própria segurança e manutenção de poder, a perversidade astuta dos líderes religiosos trata de tornar pecado qualquer tipo de dúvida e questionamento por parte dos fiéis. Segundo Adorno e Horkheimer (1985);

a fé é um conceito privativo: ela se anula como fé se não ressalta continuamente sua oposição ao saber ou sua concordância com ele. Permanecendo dependente da limitação do saber, ela própria fica limitada. [...] Permanecendo inevitavelmente presa ao saber como amiga ou inimiga, a fé perpetua a separação na luta para superá-la: seu fanatismo é a marca de sua inverdade, a confissão objetiva de que quem apenas crê por isso mesmo não mais crê. (p. 29)

A situação pode-se mostrar curiosa e ingênua, mas receio que teores amplamente perigosos aí estão por emergir. A inverdade fanática que acompanha grande parte dos fiéis é uma ameaça aos seus próprios donos. Quão atormentador seria descobrir uma vida de ilusões? É justamente em nome do medo de estar enganado que o homem luta contra a oposição daquilo que defende. Ele precisa eliminar a ameaça da contradição para que a sua verdade sobreviva. Seus líderes ideológicos não precisam temer revoluções internas; a fé inquestionável dos seus seguidores e o temor do engano lhes garantirá um exército obediente e subserviente, disposto a defender a verdade que orienta suas vidas às últimas consequências, assim como nas guerras santas da Idade Média;

Na secreta consciência da deficiência que lhe é necessariamente inerente, da contradição imanente dela e que consiste em fazer reconciliação sua vocação, está a razão por que toda a honestidade dos fiéis sempre foi irascível e perigosa. Não foi como exagero mas como realização do próprio princípio da fé que se cometeram os horrores do fogo e da espada, da contrarreforma e da reforma. [...] O paradoxo da fé acaba por degenerar no embuste, no mito do século vinte, enquanto sua irracionalidade degenera na cerimônia organizada racionalmente sob o controle dos integralmente esclarecidos e que, no entanto, dirigem a sociedade em direção à barbárie. (ADORDO e HORKHEIMER, 1985, p. 29)


Do outro lado da fé encontra-se, supostamente, a razão; a ciência esclarecida que emergiu no Iluminismo e tem transposto incalculáveis barreiras no século XXI. Para ser franco, o viés dogmático a qual se submeteu a ciência positivista moderna em nada difere do percurso econômico realizado pela religião, ou seja, segundo Adorno e Horkheimer (1985), o mito já é Esclarecimento e este, por sua vez, acaba revertendo-se à mitologia. Pólos diferentes de saber, ciência e religião são instituições administradas por grupos dominantes divergentes em seus interesses, embora regidos pela mesma lógica capitalista. Se, por um lado, a Igreja atua como base para a criação de leis, princípios morais e explicação da divina essência humana, naturalizando o sistema político vigente, a ciência positivista, por sua vez, atua em benefício das grandes indústrias, geralmente privadas.
É notável a discrepância no investimento de pesquisas nas áreas de ciências exatas e naturais e na área das ciências sociais e humanas. Isso significa que além de priorizar a formação puramente instrumental dos estudantes, no sentido de adaptação ao mercado financeiro dominante, pretende-se inibir a formação de cursos que enfoquem o pensamento crítico e sócio-histórico. No episódio da ocupação da Reitoria da USP, cheguei a me deparar com comentários que exigiam o fim de cursos como o de Filosofia, já que o dinheiro investido nestes poderiam ser aplicados em pesquisas com células-tronco. Nesse sentido, temos aí outro embate de flagrante intolerância;

A sociedade burguesa está dominada pelo equivalente. Ela torna o heterogêneo comparável, reduzindo-o a grandezas abstratas. Para o esclarecimento, aquilo que não se reduz a números e, por fim, ao uno, passa a ser ilusão: o positivismo moderno remete-o para a literatura. [...] O mito converte-se em esclarecimento, e a natureza em mera objetividade. O preço que os homens pegam pelo aumento de seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem o poder. O esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se comporta com os homens. Este conhece-os na medida em que pode manipulá-los. O homem da ciência conhece as coisas na medida em que pode fazê-las. É assim que seu em-si torna para-ele. Nessa metamorfose, a essência das coisas revela-se como sempre a mesma, como substrato da dominação. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p. 20 e 21)

O ateísmo, geralmente associado a esse tipo de pensamento científico pragmático, tem-se utilizado de métodos e argumentos empiricamente comprováveis para atacar algumas falácias das religiões. Nos debates do dia a dia ainda é possível encontrar desnecessária ofensividade e arrogância. Os sagrados jalecos brancos dotam de poder os fiéis seguidores do positivismo, tornando-os ditadores da verdade em obsoletas discussões acerca da teoria evolucionista X teoria criacionista. Tais posturas presunçosas têm reforçado argumentos também falaciosos sobre o fato da ausência da crença em Deus ser sinônimo de perversidade, falta de caráter, agressividade e até mesmo satanismo.
Outro dia, ao navegar displicentemente pelas redes sociais que freqüento, deparei-me com uma denúncia a uma comunidade do Orkut. O autor do protesto pedia que tal comunidade fosse denunciada pelo título que continha; “Jesus deveria ter apanhado mais”. Na descrição da comunidade, supostamente ateísta, declarava-se que a liberdade de expressão garantia o direito de sua existência, afinal ninguém poderia obrigar seus membros a acreditarem em um mito. Como desaprovo esse tipo de postura ofensiva, dei uma olhada mais atenta ao conteúdo da página. Não foi a minha surpresa, a grande maioria do conteúdo e dos comentários tinham teor racista, homofóbico e nazista. Não é necessário dizer que tamanha naturalidade daqueles posicionamentos deixou-me profundamente chocado e pensando comigo mesmo: “Não, o ateísmo não é isso!”.
Quando penso a questão da intolerância religiosa, sou levado a crer que ainda estamos longe de uma superação real. Superação que está para além da redução das partes em clubinhos que não se comunicam. Acredito que a religião precisa ser profundamente discutida, afinal é um fenômeno que conduziu as civilizações por séculos e séculos. Ignorar o teor político das religiões é um dos maiores equívocos que a sociedade pode cometer, e para aqueles que dizem que política também não se discute, serei obrigado a discordar. Agentes de tamanha importância nos rumos das nossas vidas não podem deixar de ser discutidos simplesmente para evitar conflito. O debate saudável e respeitoso só trará benefícios à sociedade e é o único caminho para a paz. É preciso questionar a razão de um Estado – dito laico em sua constituição – ser refém dos interesses das bancadas evangélicas e priorizar o cristianismo em detrimento às outras doutrinas. É preciso questionar a razão de se exigir juramento perante a Bíblia em sessões jurídicas oficiais. É preciso questionar a interferência da moral cristã na obstrução de leis que criminalizam a homofobia e sua a conivência com a violência dirigida aos homossexuais. É preciso questionar o crescimento financeiro das igrejas em nível de multinacionais. É preciso questionar os tabus do sexo, do aborto e dos métodos contraceptivos. É preciso questionar a ideia burguesa de família e o machismo predominante. É preciso questionar o preconceito dirigido às religiões originadas na África e no Oriente Médio. É preciso, sobre tudo, questionar o próprio preconceito.
As questões emergenciais que perpassam a influência das religiões nas sociedades de todo o mundo dizem respeito, antes de tudo, a sua posição política de poder. Já que não podem ser provadas, a existência ou a inexistência de um ser divino torna-se questão secundária quando compreendemos que a gama de poderes a Ele atribuídos não passam do deslocamento de inseguranças, submissão cultural e psicológica às leis e discursos ideológicos hegemônicos. O que de fato é relevante é a possibilidade de encontrar por trás da máscara de Deus o homem que a criou tão semelhante a sua própria imagem. Por hora, é realmente necessário dar a César o que é de César.


REFERÊNCIAS

ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. 2 ed. Tradução Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

FREUD, S. Esboço de Psicanálise. (1940[1938]) In: FREUD Obras psicológicas completas de Sigmund Freud.  Vol XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 2009.

______. O Futuro de Uma Ilusão. (1927) In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XXI, Rio de Janeiro: Imago, 2009.

______. O Mal Estar na Civilização. (1930[1929]). In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XXI, Rio de Janeiro: Imago, 2009.

FROMM, Erich. Da Desobediência e outros ensaios. Rio de Janeiro, Zahar, 1984.

Comentários

  1. Acho que não preciso comentar, né? Vou esperar o debate ter início! : )

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