Feliciano, o nosso Judas de março

Feliciano, o nosso Judas de março


O que o deputado pastor Marcos Feliciano fez até agora não é muito diferente do que outros pastores já fizeram, até com maior estardalhaço. Tirar dinheiro de crianças, cadeirantes e de ingênuos em geral em igrejas é uma prática que se tornou comum no Brasil atual. Marcos está errado? Claro que está. Não há justificativa para o que ele faz. No entanto, o ódio contra ele é três vezes maior que o ódio para com outros pastores mais ricos e até mais ofensivos que ele.
Feliciano também não é nem mais nem menos ofensivo que qualquer outro conservador brasileiro, de igreja ou de partidos ou da imprensa (ou da filosofia!), em relação aos direitos das minorias. O que ele falou até aqui, vociferando frases racistas, xenófobas e homofóbicas pouco difere do que outros, que se dizem cultos (e alguns até são) já repetiram em best sellers e na TV.
Bem, mas se é assim por que então Feliciano, nessas últimas semanas, se tornou o Inimigo Público Número 1, a própria figura do demônio em pessoa? Por que muitos que, há menos de uma semana, reclamavam do “politicamente correto”, acharam agora que Feliciano foi além, por exemplo, do que teria feito o jurista Ives Gandra Martins?  Afinal, há um texto horroroso que circula na Internet, atribuído ao jurista, que contém um chororô em favor daquele que seria o verdadeiro brasileiro pertencente à minoria: o branco, trabalhador, heterossexual, pagador de impostos e disposto a fazer concursos mesmo sem chance de passar. Vejo pouquíssima diferença entre o que Feliciano diz e o que está nesse texto, aliás, defendido por vários que, agora, estão se insurgindo contra Feliciano.
Enfim, o que ocorreu para que Feliciano fosse rapidamente eleito o Judas que temos de malhar? Creio que há três ocorrências destacáveis.
A primeira é a eleição de Feliciano para um cargo que seria a antítese de tudo o que ele fala. O que se entende por “direitos humanos” hoje é diferente do que se entendia nos anos oitenta e mesmo noventa. Naquela época os encarcerados eram vistos como os mais desrespeitados. Eles continuam sendo desrespeitados, mas nossa sociedade se tornou mais cruel em relação a eles. Os benefícios de uma política de direitos humanos, aqui entre nós, repetem o que ocorreu nos Estados Unidos há trinta anos: são as minorias sociológicas de todo tipo, exigindo um estado compensatório, que se fazem porta vozes de necessidades chamadas de “direitos humanos”. Feliciano tornou-se protetor formal dos que na prática o tomam como um algoz. Em outras palavras, por meio de uma manobra entre o PT e as forças conservadoras, a raposa ficou dona do galinheiro.
A segunda é a metralhadora giratória de Feliciano. Em geral, os conservadores atacam alvos separados geográfica e historicamente. Não se abre fogo verbal contra todo tipo de minoria: gays, lésbicas, negros, mulatos, índios, prostitutas etc. Muito menos se alia tudo isso a uma prática de exploração da fé popular, tudo filmado em vídeo e colocado na Internet por ele mesmo, Feliciano, como se isso fosse algo do qual se pudesse ter orgulho e não vergonha.
Em terceiro lugar, a própria argumentação de Feliciano é fraca. Ele é tacanho, rude, emburrecido demais. Ele não trabalha como Malafaia, que procura confundir os incautos. Ele tenta fazer isso, mas quem sai confundido, ao final, é ele mesmo. Soma-se a isso sua possível hipocrisia: Feliciano tem traços de quem tem negros na família e a igreja dele está repleta de negros. Feliciano tem fotos dele mais jovem, visivelmente afeminado. Assim, para muitos, seus ataques são uma negação de si mesmo, uma tentativa de afastar de si uma vergonha social internalizada.
O que disse até aqui são as razões de Feliciano ter virado o Judas atual. Tão Judas que até Xuxa e, quem diria, Luciano Huck, fizeram declarações contra ele. Agora, até mesmo evangélicos, que até ontem eu chamava de evanjegues, estão dizendo “Feliciano não nos representa”. Começa-se a tirar de Feliciano uma cidadania que ninguém tira de ninguém no Brasil, a de ser cristão. Feliciano começa a ser rechaçado como “homem de Jesus”. Mesmo tendo os pastores e os padres cantores confundido a cabeça da população, fazendo Jesus virar algo contrário do que ele era no meu tempo de criança, ainda assim a população entende que Feliciano, com o que diz, não tem a ver com Jesus. Até Malafaia, Edir Macedo, Waldomiro e o Padre Marcelo podem ser tomados como cristãos pela população mais estúpida, mas Feliciano, não mais.
Mas será que toda a responsabilidade de Feliciano ter se dado mal é exclusivamente dele? Não, não creio. Outros já beiraram fazer o que ele fez e escaparam. No caso de Feliciano, há uma confluência ruim dos astros contra ele. Ou seja, ele fez arte em um momento em que uma parte da população, mesmo vivendo bem, está irritada com alguma coisa e se sentindo impotente diante da política. Os conservadores estão magoados com Lula e Dilma que, enfim, por conta de terem tirado muita gente da miséria, parecem não ligar nem um pouco para algo simples: os escrúpulos de não se envolver em falcatruas e não apadrinhar envolvidos em falcatruas. Os não conservadores, por sua vez, estão magoados com os que malham o “politicamente correto”, mas, de certa forma, também começam a ficar distantes de Lula – votariam nele novamente, mas com o nariz tampado, aliás como já fizeram no seu segundo mandato e depois, na eleição de Dilma. Afinal, o voto útil em alguém que não seja do PSDB é tudo que as pessoas com algum juízo levam adiante. Mas, o certo é que uma boa camada de gente que ao menos lê jornal, está se sentido meio passada para trás com a política atual. Ninguém mais se sente participante, como ocorreu nos anos oitenta e até mesmo noventa. Eis aí o momento da raiva, da necessidade de catarse, de irritabilidade diante de desmandos.
Feliciano fez o errado e Deus ficou contra ele. Foi a primeira vez que Deus deu um pé na bunda verdadeiro em um pastor. Talvez Deus tenha acordado, e digo isso levando em conta que o Papa disse (verdade?) que Ele andou dormindo em serviço. Como eu gostaria que Deus ficasse só mais um tempinho acordado, de modo a termos outros pastores e padrecos cantores na berlinda.
Bem, para terminar lembro que essa semana o deputado do PT, João Paulo Cunha, condenado no processo do Mensalão, disse que quer ficar o dia todo no Congresso, trabalhando, e voltar só à noite para a cadeia. João Paulo acabou, sem querer, dando uma ideia interessante. Estendida à quase totalidade do Congresso, isso seria uma forma de mostrar que Deus não voltou a dormir.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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