O seu mundo melhor

Começando a semana de maneira habitual, vinha fazendo meu caminho pra casa dentro de um micro ônibus pra ainda ter que tomar uma segunda condução, de repente me deparo com um congestionamento em uma rua estreita onde vários carros particulares resolveram passar pelo mesmo lugar sem se dar conta que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Impressionado com aquela aula de Física que por muitas vezes fazemos questão de ignorar, fiquei reclamando comigo mesmo o quanto aquelas pessoas estavam sendo idiotas e burras, não pela Física do contexto, mas por conta da falta de raciocínio, eles simplesmente pararam e cruzaram os braços como se estivessem dizendo "Se eu não passar, então ninguém vai passar e vamos ficar aqui a noite inteira até rolar uma briga ou você me ceder espaço". O calor começava a incomodar e ainda por cima não passava vento naquele lado da rua, sem contar que estava em pé e obviamente o carro estava cheio. Foi então que um sujeito pediu ao motorista pra abrir a porta, disse que daria uma ajuda pra liberar o caminho. Enquanto ele ia conversando com toda a solidariedade baiana que havia adquirido durante a vida, eu escutava alguns comentários desmerecendo a atitude do sujeito, chamando-o de idiota já que aquela atitude não resolveria coisa alguma:

- Ó pra lá, esse idiota, ta vendo que não vai resolver nada! 

Enquanto isso alguns carros iam se movimentando pra esquerda, direita, com uma ré ou uma aceleração pra seguir em frente, quando de repente o caminho estava livre e...

- Ih, deu certo! 

Aproveitando a oportunidade e o meu tamanho avantajado, falei em tom moderado, mas sem olhar para o crítico e enalteci a atitude do homem que buscou fazer a diferença e ainda foi chamado de idiota. Houve um silêncio, o sujeito voltou ao carro e ainda recebeu agradecimento do fiscal de trânsito que estava sozinho. Nesse momento eu assumo que fui babaca e bradei que o salário dele deveria ir pra quem resolveu, já que ele parecia mais perdido do que bala em trincheira. 
É impressionante como as pessoas preferem criticar quem busca fazer essa diferença, se eu pudesse dar um prêmio pra aquele cara, com certeza já teria dado, pena que não tinha uma lata de cerveja na minha mochila. Ultimamente a reação ou a crítica que chamam de destrutiva tem sido a primeira opção para "fulminar" quem busca o bem comum. Fico imaginando quanto tempo mais ficaríamos naquele trecho parado e em quanto tempo seriamos assaltados ou em qual momento alguém iria descer com uma arma na mão. Minhas expectativas podem parecer trágicas, mas quem vive a realidade da cidade do Salvador e RMS sabe que dez reais já é motivo suficiente pra assassinato, imagine o resto.

Não entra em minha cabeça que a boa vontade ou viver em paz sejam coisas tão desprezíveis na sociedade que vivo, não sei em qual época o baiano se tornou tão mesquinho e egoísta. Nossa fama era de acolhimento e cuidado com o próximo, vivianos bem com os vizinhos (mesmo com todos os problemas e fofocas que existem em qualquer sociedade que imagino) e sempre dávamos um jeito de resolver as coisas sem maiores problemas. Pelo menos cresci numa cidade assim. As vezes costumo pensar que o desenvolvimento urbano e econômico, além da falta de educação, tem transformado a gente em pessoas ruins. Mas isso é outra história.

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Gostaria deixar aqui uma nota de indignação por conta da covardia dos torcedores de Vasco x Atlético Paranaense. Eu costumo dizer que nossos torcedores absorvem mais rápido o que é ruim daquilo que assistimos acontecer em outros estádios. Bater em pessoas caídas com pedaços de ferro, agredir fisicamente outras pessoas em grupos e estragar o lazer de pais, mães e filhos não é a maneira correta de mostrar a frustração com a vida e com a merda do time de futebol. Gente, isso é só futebol. Não é a vida de outra pessoa que vai recompensar a derrota e a tristeza que estão sentindo. Aqui na Bahia existem algumas torcidas rivais que usam armas de fogo para machucar até inocentes. Eu achava lindo ser parte de uma Organizada, as músicas de incentivo e a união eram os principais atrativos, me sentia bem em dividir um espaço onde todos eram iguais. Hoje eu vejo torcidas sem cânticos criativos apenas copiando os estrangeiros, violência,  estádios cada vez mais caros e vazios e nenhuma providência tomada por parte das autoridades que só discutem o tema quando há tragédia. 
Vocês são a vergonha desse país, nós deixamos isso acontecer e participamos disso. Vivemos numa sociedade doente, impune e corrupta com uma ferida egoica do tamanho de nosso território. 

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