Acalanto

Enquanto digitava, lembrei de: 
Memories  - The Mars Volta (ou) 
Lie to Me - Breaking Benjamin

Por volta de 2007 eu começava a dar passos pra algo que iria mudar a minha vida em todos os sentidos. Na verdade deve ter sido antes, quando retornei de um período de férias e aprendizado para uma vida inteira. Infelizmente ou não, tenho o hábito humano de me dar ao luxo de esquecer que algumas experiências devem ser lembradas durante a vida toda. Não que eu tivesse esquecido completamente de tudo, mas do mais importante, aquilo que eu deveria colocar em prática sempre que houvesse um problema. Como sou ingênuo! Aquela nova caminhada está para ser encerrada em alguns meses e outra mais difícil ou não está por vir, mas naquela época aprendi a cultivar o hábito da solidão e não me importava o mínimo do quanto aquilo poderia me fazer mal, já que não fazia. As coisas que me preocupavam era o que seria da minha vida quando eu tivesse vinte e tantos anos, como seria a minha caminhada como um homem, com quem eu ia perder minha virgindade e qual mulher seria minha companheira pelo resto da vida. Claro que as preocupações sobre dinheiro e emprego já apertavam a minha mente desde então e está incluso em uma destas. Quem me conhece sabe que nem precisaria citar. 

Até que, voltando pra casa numa noite de festa junina me deparei sozinho no meio da rua vazia, fumacenta, silenciosa a ponto de ouvir os estouros das bombas do outro lado do bairro, tamanho era o eco naquele vazio. Então eu pensava sobre que tipo de pai de família gostaria de ser, sobre o que meu pai me ensinou sobre ser homem, sobre a mulher que gostaria de ter como companheira sem pensar como um adolescente punheteiro aficionado por bundas voluptuosas, perfeitas e me importando mais com o seu caráter e o que ela poderia admirar em mim e suportar nos meus defeitos. Pensei no que toleraria, no que não seria aceitável e no que me faria ama-la por toda a minha vida de maneira que NUNCA me rendesse a traição. Não queria ter uma família como a minha se encontra até hoje: pontas soltas, desunida nos momentos em que todas as outras se unem para festejar feriados e festas. Gostaria de ser um bom pai, exemplar e justo, bom amante, amável e amado. Justo, que unisse a família e tratasse minha mulher como uma igual e ela a mim. Eu não queria a mais desejada e bela do mundo, só que ela fosse tudo isso pra mim. Acho que foi ali que decidi que iria amar uma mulher como eu gostaria de ser amado, mas não queria algo em troca e sim que fosse merecido. Da capela de São Pedro até a minha casa consegui pensar nisso tudo e mais um pouco. 

Só que a solidão ainda não me incomodava tanto.

Não foque no negão. Foque no acalanto.


Fui crescendo, conhecendo moças e mulheres. Mais mulheres do que moças (nunca fui fã das moças de 19 anos, queria as mais vividas) e isso me fazia um certo bem. Era um cara fácil de se apaixonar (não por qualquer uma, mas quando me encantava por ela, perdia toda a agressividade e medo que costumava transmitir), ao contrário de hoje, me apaixonar era como devorar o doce e sair contando pra todo mundo que provei daquilo. Eu só pensava naquela garota, só pensava em como conquista-la*, como deveria chamar pra sair, o que faria enquanto caminhávamos juntos durante o passeio. Calculava quanto teria que gastar, como iria me vestir, qual a melhor maneira de deixa-la confortável. Eu era um pequeno cavalheiro, ingênuo, em fase de aprendizado. Só queria falar dela, pensar nela e quando ela falava comigo e respondia a alguma frase que lançava timidamente, mas com a intenção de demostrar o meu carinho... era conversa pra duas horas. Meus amigos deviam me odiar em alguns momentos.
Nota #1: Relevem o exagero quando digo que eu SÓ pensava nisso, quis passar intensidade.

Já fui bom nisso, acalanto.

Durante esse tempo a solidão ainda não me incomodava, mas já estava pedindo pra não ser abusada. Eu conseguia sair pro cinema, shows... SHOWS, eu disse SHOWS sozinho, jogar e passar o tempo escutando música, apreciando qualquer paisagem que estivesse ao meu alcance. Existiam lugares que eu era louco pra ir, mas só quando estivesse com ela. E assim foi em alguns momentos e com algumas pessoas. É engraçado perceber isso, já que eu sou conhecido por alguns pelo exagero de reclamações sobre os planos que nunca davam certo.* 
Nota #2: A terapia tem me ajudado, mas eu reconheço que já sabia disso, não vem ao caso.

Uma das coisas mais assustadoras pra mim era conhecer os familiares das mulheres com as quais me relacionei. Amigos, parentes, irmãos, colegas... não assustavam tanto. Mas eu sempre me achei tão pequeno, me desvalorizo tanto, que me achava indigno de conhecer os familiares. A minha primeira experiência foi traumatizadora e não desejo pra qualquer garoto e muito menos ao meu filho, se um dia eu tiver um. Eu sempre achava que ia sofrer coisas muito piores e ouvir a temível "Quem é você".
O tempo passou, enfrentei certas coisas com meu jeito e dificuldade, não devo ter superado e ainda assim consegui encarar a mais importante porque ela (você) estava ao meu lado. Conheci parentes, amigos e familiares. Fui ficando mais solto e percebi que era aquele ninho de convivência e família que gostaria de ter vivenciado, que existia quando eu era bem pequeno e quero fazer melhor quando for adulto  a minha vez.

Atualmente venho escrevendo sobre meus sentimentos e a agonia de estar sozinho e solitário. O que antes era uma casa confortável tem se tornado um quarto enlouquecedor. As vezes quero sair de lá, mas as vezes prefiro dormir ali e não ter que sair pra enfrentar o que poderá ser pior. Eu estou rindo nesse momento ao escutar a minha fala, mas é trágico de certo modo. Eu não tenho medo de lutar, mas odeio perder o tempo todo. Odeio pensar no amor, odeio ver casais felizes e odeio pensar em sexo. Mas esse ódio é pura inveja, a mesma que sentiam por mim quando estive no lugar desses que hoje não gosto de perceber. A vida tem dessas coisas e odeio pensar que alguém diz "É a vida" como forma de acalanto para o conformismo.

PS: Interessante lembrar do meu pai em um texto que só queria ter falado sobre como tenho encarado a solidão, mas nesse mês farão 18 anos que o sr João partiu, entre 20 e 22.

PPS: Junio, sempre escreva do jeito que sente e não adie o momento pra não perder o sentimento.

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