Tem que saber chegar

Correr nunca foi o meu exercício predileto, nem quando era um praticante de Judô. Sentia dor no tronco depois de correr muito durante a infância em brincadeiras de Pega-Pega (Picula) ou qualquer coisa do tipo que não tivesse um descanso. Na época não me sentia bem pra respirar normalmente, mas eu não sabia disso. Pronto, sonhei que estava correndo.

O sonho se passa na Orla de Salvador, provavelmente na região entre Piatã e Praia do Flamengo. Estava junto a um grupo de rapazes que começariam a fazer exercício durante aquela hora da noite ou madrugada. Alguém fez um comentário gracejando os hábitos de algumas pessoas que estavam se exercitando ali, praticando um tipo de treino intensivo que virou moda nas praias daqui, parecido com o que fazia na época do futebol. Então começaram a correr e eu avisei: 
- Não posso correr. Vão na frente que vou caminhando e encontro vocês em Itapuã.
- Vai caminhando? Vai demorar!

Então passou um sujeito do nosso grupo que estava num condicionamento físico parecido com o meu. E não lembro o que disse, mas me inspirou a tentar. Foi interessante, comecei a dar um trote e lembrei que tinha que fazer no meu ritmo, o importante era chegar até o final. Sem essa de querer sair correndo igual a um maluco, mesmo porque não tinha condição pra aquilo. Fui correndo devagar, saí do circuito e tentei ir pelo estacionamento pra evitar atrito com outras pessoas dali. Ia vendo as coisas ao meu redor passando numa velocidade considerável, não conseguia ouvir minha respiração e meus passos, já que na minha cabeça estava tocando Alice in Chains - Man in the box (eu sou tão foda que até meus sonhos tem boa trilha sonora). A sensação era boa, fazia tempo que não conseguia sentir aquela liberdade semelhante a andar de bicicleta ou moto. Algumas vezes percebi que meu corpo queria parar, ele tombava meio que inclinado assim, sentia um incomodo na lateral do pé e percebia que estava voltando a caminhar. 

Gabriela Andersen-Schiess lutando pra seguir até o fim em 1984. 

Não quis seguir daquele jeito e voltei a correr. Passei de onde eu deveria parar, me juntei aos outros e entramos em algum bairro de rico daquele lado (que suponho ser Praia do Flamengo). Fui percebendo o dia amanhecer e a boa sensação que rolava em meu corpo. Foi libertador até a hora de acordar, que é quando entra em cena alguma coisa sem noção e totalmente destoante do que estava vivendo ali. Acordei.

***
Quando eu voltei a malhar não conseguia correr sem parar, sempre caminhava um trecho e andava. Meu corpo hoje em dia cansa muito rápido e o condicionamento está baixo. Provavelmente diabético! Os motivos que me fizeram desistir de correr? Joelho estourado, a depender da movimentação da pra sentir alguma coisa da região patelar se deslocando. A sensação de enjoo ao final da atividade, a respiração horrível que tenho por conta de alguma coisa que tenho na via nasal. Consigo lembrar EXATAMENTE quando foi que senti cada uma dessas pela primeira vez e todas foram enquanto estudava no ginásio e ainda lutava. Desde então passei a odiar a corrida, bem típico.

Queriam que ela desistisse e fosse acompanhada por médicos.

Algumas vezes eu já pensei no quanto algumas pessoas são privilegiadas  por correrem e eu por ainda poder andar. Caminhada não é o meu esporte predileto. As vezes o faço tão rápido e forte que pareço estar correndo. E da vontade de fazer isso, da pra sentir o atrito da roupa entre minhas pernas e a pele queimando, aí vem aquela vontade de partir numa arrancada e tentar manter um ritmo mais leve. É como se tivessem correntes em mim. Mas preciso descobrir o que tenho primeiro. Aí é que está o problema, os poréns da vida.  


Eu sempre tive pressa e estava cansado de não chegar aonde queria, mas não desisti. Não sei se simboliza o trajeto da vida ou o que venho percorrendo há algum tempo. Não sei também se tem algo relacionado com meu aniversário semana passada. Superar se trata basicamente da forma como conseguimos aquilo e tem tudo a ver com a derrota, perda, fracasso e como lidamos com isso é cruel em alguns momentos. Mas não é superação se não enfrentamos e vencemos ou se não aprendemos a tirar algo valioso daquilo. Vencer nem sempre se trata de chegar em primeiro ou ser melhor que os outros. Infelizmente vivemos numa sociedade em que desvalorizamos o esforço e a dificuldade até ela se tornar um grande feito. 
Tenho que seguir.

PS: Nesse ano de 2014 fazem 30 anos da Maratona Feminina de 84, em Los Angeles. Nunca soube o nome da mulher que venceu a competição. Mas conheço o nome da que mais se esforçou. Obrigado Gaby, pelo exemplo!

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