Plantas precisam crescerem para se tornarem àrvores



Semana passada eu estava numa festa de casamento e como era a festa do meu irmão precisava estar bem arrumado, óbvio, já que a ocasião requer uma certa etiqueta. Só que essa ocasião no fim de semana veio pra reforçar a questão da percepção que tenho sobre mim e como a percepção das pessoas me afeta diretamente. Dessa vez algo chamou a atenção das pessoas e foi a minha barba.

Eu "crio" barba desde os 18 anos, as vezes nem deixava crescer muito por que sentia vergonha de como ela se formava e não tinha a mínima noção de como deveria fazer aquilo, se existiam produtos e etc. Sempre olhava pra uma fotografia que havia tirado antes de ir pra Fortaleza, olhava o contorno do rosto e pensava em como seria legal ter um pouco de pêlos ali. Até o dia em que vi uma foto do meu pai, muito antiga, em que o falecido estava usando algo semelhante ao que tentava fazer e decidi que era possível. Nunca aprendi a me barbear como os homens da tv fazem tão bem com uma lâmina na mão e isso me frustra até hoje, preciso pagar pra outra pessoa fazer quase igual ao que gostaria. Raramente fica bom e dificilmente conseguem fazer sempre do mesmo jeito. Entre os crescimentos e raspagens decidi que ia manter uma e desde então, por volta de 2010 ou 2011, não havia raspado novamente até ser chamado pra uma entrevista de estágio numa multinacional. Raspei a barba, coloquei uma roupa social (era a única que tinha) e peguei um ônibus pra Camaçari cheio de esperança no coração. Claro que não consegui ser aprovado. Então decidi que esse tipo de ocasião requisitava um corte mais baixo o possível, sem perder o desenho e sem esconder que uso barba. Sempre explico que não sou de raspar o rosto pra evitar que aqueles caroços irritantes cresçam e se torne algo desagradável, meu pêlo crescia e encrava. Agora em 2016 me encontro numa situação diferente porque a barba voltou a ser moda. Homens ostentam barbas tão grandes e volumosas quanto alguns cavalheiros que as fotos ilustravam meus livros de literatura. Porém, pra mim ainda é um problema. 


      "Obedeça, não vista, sorria mais, reclame menos, a vida é assim mesmo, é impressão sua!"


Voltando ao casamento, de início já havia imaginado a possibilidade de ouvir alguma reclamação por parte de minha amada mãe e então aparei com uma máquina que comprei ano passado, mas não reduzi o tamanho do "queixo". Está grande? Mal feita? Não. Mas chegando na cerimônia escutei um "e essa barba aí?" dos dois irmãos mais velhos. Depois ao fim da festa ouvi do cunhado do meu irmão que seria melhor baixar porque parecia um muçulmano. Claro que parecia, a imagem que as pessoas tem de um muçulmano é um homem negro, barbudo e sisudo. O que pra mim é um estereótipo fraco, pra eles significa dizer que é um terrorista. Um terrorista no fim de tudo é um marginal. Sorri e saí, resolvi não levar a sério já que antigamente escutava muitos conselhos afirmando que era coisa da minha cabeça. Sim, o preconceito é sempre algo da cabeça, afinal não gostamos de encarar a existência disso. Decidi que ia encontrar uma amiga no shopping próximo à festa e saber, sem perguntar, o que ela achava de mim. Por sorte escutei um belo elogio. Antes mesmo disso já havia escutado elogios de outros homens sobre a minha barba e a lamentação de um por não poder "ostentar" essa maravilha. No dia seguinte, uma sexta-feira em que decidi sair na noite soteropolitana, olho meu Whatsapp e leio um texto explicando que eu deveria tirar a barba já que as pessoas tinham medo do que poderia acontecer comigo e que estava sujeito a sofrer humilhações por parte das pessoas e por ter pavio curto (afirmando me conhecer bem) poderia sofrer implicações.


Por causa da minha barba?


Vejam bem, eu sempre sofri humilhações. Primeiro por ser negro, depois por estar engordando, consequentemente me tornei um homem não agradável por sorrir pouco e por ter um rosto ou semblante... uma expressão mais "fechada". Que porra é expressão fechada? Sou um homem sério e comportado quando estou no meio público. Brincalhão com quem me sinto à vontade, as vezes uma criança de 10 anos é mais madura que eu até, mas procuro estar tranquilo justamente pra não amedrontar as pessoas. 
Não é a minha barba que causa temor e sim a minha aparência. Não sou um homem feio, mas sou como poucos. Tenho por volta de 1.80, estou acima dos 140 kg, negro e com uma expressão séria. Procuro ser gentil com todos ao meu redor, desde que não me ameacem e daí sim posso ter uma atitude mais séria, mas sempre evitando qualquer confronto direto. Você se calaria diante de uma ameaça ou injustiça? Eu não. Mas prefiro usar da minha educação e desenvolver um diálogo do que fazer um mínimo movimento que possa gerar violência. Quem me conhece as vezes se indigna com a minha falta de atitude em buscar vingança diante de um prejuízo, mas sempre prefiro dialogar do que aumentar o tom e entendo que tenho uma voz potente. 
Sempre vou preferir o respeito já que aprendi com a vida ser um homem educado. Sempre preciso me adaptar e me repreender pra evitar que as pessoas me tratem como um pária. Sou muitas vezes tratado como um ser invisível quando convém, mas ao mesmo tempo posso ser uma ameaça pra muitos. No sábado, enquanto voltava pra casa e andava na região do Apipema fui "invisibilizado" dentro de um mercado e enquanto descia uma ladeira vi uma garotinha se escondendo atrás do pai enquanto passava. 

Qual o meu problema?


Por que não posso ser aceito num restaurante sem precisar ser encarado pelos outros clientes? Não posso fazer parte daquele ambiente por conta da minha classe social. Por que tenho que sentar numa cadeira no ônibus cruzando braços e pernas à fim de não TOCAR no passageiro ao lado? Porque sou gordo e muitas vezes evitam estar ao meu lado e até resmungam quando minha pele entra em contato, como se fosse leproso. Esse tipo de comportamento vai perdurar até quando? Eu me podo justamente pra ser aceito, já que quando quero ser eu também me torno um incômodo. 
Como um homem pode se desenvolver se ele está sendo podado por seus preconceitos? Se eu que tenho acesso a tantas coisas que outros não tem está sofrendo com isso, imagine tantos outros que não tem 1/3 do que me foi dado.  


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